JAIR GABRIEL | Plastic Artist
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Geometry of the Sacred
By Ermanna Cavazzoli in December 28, 2025
Uma realidade superior na obra de Jair Gabriel: o pontilhismo que pulsa na Amazônia
The trajectory of Jair Gabriel da Costa, Master Jair Gabriel, is one of those rare chronicles in which life is transformed into an aesthetic and spiritual manifesto of universal scope.. Born in 1950 in the heart of Porto Velho, Rondônia, Jair grew up under the aegis of a powerful spiritual lineage: son of Mestre Gabriel, the visionary founder of União do Vegetal (UDV), and Mestre Pequenina.
Sua infância não foi apenas um cenário de subsistência nos seringais, mas um mergulho em uma floresta viva, habitada por mistérios que sua arte viria, décadas depois, a decodificar por meio de uma cartografia vibracional. Como auxiliar direto de seu pai no preparo do Chá Hoasca, ele aprendeu a bater o Mariri, um gesto ritual que ressoa em sua obra como uma batida rítmica.
Antes da descoberta de seu talento artístico, ocorrido tardiamente em Salvador, despertada pelo artista plástico baiano Edison da Luz e estimulado pela crítica de arte Matilde Matos aos 45 anos, houve a dura lida como seringueiro. Foi no isolamento das trilhas e no fluxo dos rios que Jair absorveu a rica tapeçaria cultural amazônica de lendas caboclas como o Boto e a Iara às cosmogonias ancestrais Yanomami e Munduruku. Essa imersão real conferiu a Jair uma "memória tátil" que distancia sua obra de qualquer representação meramente contemplativa.
Embora sua estética remeta visualmente ao pontilhismo europeu de Seurat e Signac, a distância entre as técnicas é ontológica. Enquanto o ponto europeu nasceu de uma investigação científica sobre a óptica e a decomposição da luz, o ponto de Jair é uma unidade de fé. Se no Neoimpressionismo o ponto é um "átomo de luz", na técnica de Jair ele é um "fragmento mítico": uma partícula espiritual que mimetiza a experiência da "miração" e a clareza alcançada pelo Vegetal.
Cada minúscula aplicação de tinta (1-2mm), executada com pincéis de precisão extrema, opera como uma metáfora visual para os xapiri Yanomami — espíritos minúsculos que se unem para manter o equilíbrio do cosmos. Neste ponto, emerge uma convergência profunda com o pontilhismo dos aborígenes australianos do Western Desert. Na tradição australiana, o ponto surgiu como um "véu protetor" (técnica de dots do movimento Papunya Tula) para obscurecer símbolos sagrados e conhecimentos rituais de olhares não iniciados. Enquanto o artista aborígene usa o ponto para "esconder revelando", Jair Gabriel o utiliza para "revelar integrando". Para ambos, o ponto não é um recurso decorativo, mas uma codificação de uma ancestralidade que resiste ao apagamento colonial, transformando a tela em um campo de energia e proteção.
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Aprofundar-se na técnica de Jair é perceber uma geometria do sagrado. As composições frequentemente se organizam em eixos radiais e centrais: árvores majestosas que simbolizam a criação de Tupã erguem-se como eixos do mundo, enquanto cardumes de peixes em tons de laranja vibrante giram em redemoinhos que remetem ao mistério aquático da Boiúna.
A escolha cromática é rigorosa e simbólica: verdes esmeralda profundos para a densidade da folhagem, azuis hipnóticos que celebram a fertilidade de Iara e amarelos e vermelhos quentes que evocam o mito Kayapó de Bepkororoti. Jair utiliza a sobreposição de pontos para criar uma vibração óptica que sugere não apenas luz, mas a própria umidade e o calor da floresta. Suas figuras híbridas, como as mulheres-pássaro, emergem dessa névoa de pontos como guardiões espirituais, enquadradas por bordas rituais que funcionam como molduras-portais, convidando o olhar a atravessar a superfície da tela em direção ao imaterial. Essa estratigrafia pictórica assemelha-se ao conceito de Songlines (Trilhas de Cânticos) da Austrália, em que cada ponto mapeia um evento da criação, mas com uma distinção fundamental de perspectiva.
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Convergência espiritual
A relação de Jair com os xapiri transcende a mera inspiração; é uma tradução formal de uma profunda convergência espiritual. Na cosmologia Yanomami, os xapiri são "espíritos-imagem", seres de luz minúsculos e brilhantes que dançam para sustentar o céu. Essa visão dialoga diretamente com a cosmovisão de Jair, onde o Vegetal revela a floresta como uma rede de inteligências microscópicas. Para ambos, a selva é um "povo" de espíritos. O ponto de Jair é o xapiri em estado visual: uma multidão de consciências que prova que a harmonia da vida depende da articulação dessas partículas invisíveis. Assim, o pontilhismo em sua obra deixa de ser um artifício óptico para se tornar uma manifestação xamânica da luz.
No panorama da arte visionária brasileira, Jair Gabriel estabelece diálogos fascinantes com outros "mestres do invisível". Enquanto Arthur Bispo do Rosário organizava o caos urbano em um inventário têxtil para o Juízo Final, e Rubem Valentim decodificava o sagrado afro-brasileiro em uma semiótica geométrica rigorosa, Jair projeta a selva como um sistema nervoso espiritual. Sua obra compartilha com a de Chico da Silva o bestiário fantástico da Amazônia, mas substitui a crueza linear de Chico por uma pulsação atmosférica e luminosa.
Se os pontos aborígenes australianos protegem segredos e mapeiam a terra de forma cartográfica e aérea, a obra de Jair é imersiva e frontal. Ele nos coloca "dentro" da mata, cara a cara com a entidade botânica. Jair aproxima-se da sensibilidade de artistas como Djanira na celebração da fé popular, mas expandindo-a para o campo da experiência psicodélica e transcendental da Hoasca, onde o ponto funciona como o pixel de uma realidade superior.
Sobre o trabalho do artista Jair Gabriel, o pensador Taurino Araújo disse: "Que coisa linda! É o pontilhismo de um mundo encantado". Inserido neste contexto, Jair Gabriel estabelece um ponto de equilíbrio único. Ele se afasta da crueza figurativa de Mestre Vitalino para fundar uma estética que é, ao mesmo tempo, ancestral e contemporânea. Diferente do "exotismo" de Henri Rousseau, Jair opera a partir da vivência biográfica pulsante. Seu trabalho é um manifesto ecológico e pós-colonial que eleva o caboclo e o indígena ao cânone das artes visuais, transformando memórias de seringueiro em portais que celebram a preservação do patrimônio imaterial da Amazônia.
Créditos do Conteúdo
Texto: Coluna Olhares / Celso Cunha Neto
Fotos: Celso Cunha Neto / Divulgação
Source: Jornal A TARDE (28/12/2025)
